Os organizadores de maratonas podem planejar o percurso e a distância, mas o clima continua imprevisível. Ted Metellus, diretor de produção de eventos e diretor da prova da New York Road Runners, disse que o calor agora é um dos principais focos da preparação, especialmente depois das condições excepcionalmente quentes na Maratona de Nova York de 2022. As temperaturas na chegada ao Central Park ficaram cerca de 12 graus Celsius acima das do ano anterior, e o tempo médio de conclusão foi 11 minutos mais lento, segundo dados da Road Runners. A organização respondeu ampliando sua preparação, inclusive disponibilizando mais estações de nebulização para uso, independentemente da temperatura.

Pesquisas indicam que as condições associadas a bons resultados em maratonas diferem conforme o gênero e o nível de habilidade. Um estudo de 2012 com quase 1,8 milhão de participantes que concluíram seis grandes provas constatou que a temperatura média ideal para o 1% mais rápido dos homens era de 4 graus Celsius, em comparação com 10 graus para o 1% mais rápido das mulheres. Entre corredores recreativos, as médias correspondentes eram mais próximas: 6 graus para os homens e 7 para as mulheres.

Chris Tyler, professor de fisiologia ambiental da Universidade de Roehampton, disse que os corredores mais rápidos geram mais calor porque se esforçam com maior intensidade, o que torna as condições mais frias mais favoráveis. Corredores mais lentos produzem menos calor interno e conseguem tolerar temperaturas um pouco mais altas. Mike Tipton, professor da Universidade de Portsmouth, explicou que, em condições quentes, o corpo envia mais sangue para a pele para liberar calor, deixando menos sangue disponível para abastecer os músculos em atividade. Isso pode provocar fadiga mais cedo e obrigar os corredores a reduzir o ritmo.

Os riscos podem se tornar graves quando o corpo não consegue lidar com o calor. Em 1984, as temperaturas na Maratona de Nova York chegaram a 26 graus Celsius, com umidade acima de 90%. Das 16.315 pessoas que largaram, 14.590 concluíram a prova, e centenas receberam atendimento por problemas relacionados ao calor, segundo o The New York Times. O corredor francês Jacques Bussereau desmaiou no Queens depois de cerca de 22,5 quilômetros e morreu mais tarde de parada cardíaca. O fundador e diretor da prova, Fred Lebow, chamou o ocorrido de “o desastre de 1984”.

A maratona de Chicago de 2007 também foi interrompida enquanto estava em andamento, quando as temperaturas chegaram a 31 graus Celsius e o ponto de orvalho permaneceu próximo de 20 graus por várias horas. Mais de 300 pessoas foram retiradas do percurso por ambulâncias, 49 foram hospitalizadas, e um corredor de 35 anos que desmaiou por volta do quilômetro 29 morreu mais tarde. Em resposta, Chicago criou um centro de comando unificado, envolvendo serviços de emergência e outras agências, acrescentou um especialista em meteorologia à equipe e estabeleceu um sistema de alertas do evento codificado por cores para comunicar as mudanças nas condições. Desde então, o sistema foi adotado por outras grandes provas, inclusive a de Nova York.

Alguns organizadores também mudaram as datas das provas, além de suas estratégias de preparação. A Maratona das Twin Cities será transferida duas semanas para mais tarde, para o primeiro domingo de outubro, a partir de 2027. A decisão veio após uma análise dos dados e das condições meteorológicas, depois que o calor extremo levou ao primeiro cancelamento da história do evento, em 2023. Naquele dia, as temperaturas nas Twin Cities chegaram a 33 graus Celsius, um recorde para outubro.

Os organizadores também levaram em conta as temperaturas noturnas, já que a prova começa cedo pela manhã. Ed Whetham, diretor de operações do evento, disse que as mínimas noturnas vinham subindo gradualmente nos 15 anos anteriores. Dean Orton, presidente da Twin Cities In Motion, disse que o objetivo original da prova era aproveitar uma manhã fresca de outono, mas que as tendências climáticas de longo prazo faziam cada vez mais o evento parecer uma prova de fim de verão. Espera-se que a mudança para uma data posterior reduza as temperaturas médias em cerca de 5,5 graus Celsius, disse Orton.

Quando mudar a data não é uma opção, os corredores podem se preparar para o calor por meio da aclimatação. Tyler disse que isso ajuda o corpo a se adaptar ao exercício em condições mais quentes. Tipton disse que fazer exercícios no calor por cerca de uma hora e meia por dia durante 10 a 14 dias pode ajudar, pois o corpo aumenta o volume de sangue circulante e começa a suar mais cedo.

A necessidade de preparação pode aumentar à medida que as temperaturas sobem. Uma análise de 2025 da Climate Central sobre 221 maratonas em todo o mundo estimou que, até 2045, 190 provas — 86% das analisadas — teriam menor probabilidade de apresentar temperaturas no dia da prova dentro da faixa ideal para pelo menos um grupo de corredores de elite ou recreativos. Nova York estava entre elas: a análise projetou uma queda de 2 a 5 pontos percentuais na probabilidade de temperaturas ideais para cada um de seus quatro grupos de corredores de elite e recreativos, homens e mulheres.

Fontes: Folha Esporte.